Donald Trump acolhe Xi Jinping à saída do avião: o significado de um gesto protocolar
A Visita de Estado do Presidente Chinês, Xi Jinping, aos Estados Unidos, de 23 a 25 de setembro de 2026, inicia com uma imagem pouco habitual: o Presidente Donald Trump e Melania Trump aguardavam Xi Jinping e Peng Liyuan junto à escada do avião, na Base Aérea Conjunta Andrews, em Maryland. O gesto merece atenção, na medida em que numa visita desta natureza e importância, o local onde se recebe um Chefe de Estado é determinante na mensagem transmitida pelo anfitrião ao visitante e a quem acompanha a visita mediaticamente.
A presença do Presidente anfitrião no aeroporto tinha sido anunciada pela Casa Branca e está documentada pelos registos oficiais de ambos os países. O gesto é de tal modo impactante que, a última vez que tal acontecera, tinha sido a 22 de setembro de 2015, quando o Presidente Obama recebera o Papa Francisco. Onze anos depois, o Presidente Trump repete o gesto protocolar.
Assim, Donald Trump escolhe participar no primeiro momento da chegada do seu homólogo, antes da receção formal do dia seguinte, quando o Presidente Chinês e Sua Mulher são acompanhados por guarda de honra, recebem flores oferecidas por crianças norte-americanas e assistem à execução dos hinos nacionais, a uma salva de 21 tiros e a um sobrevoo militar. Esta combinação atribui ao acolhimento oficial a dimensão cerimonial.
Note-se que a singularidade do gesto pode ser analisada diplomaticamente. Em maio de 2026, quando o Presidente dos EUA chega a Pequim, é recebido no aeroporto pelo Vice-Presidente chinês Han Zheng. Xi Jinping recebe-o no dia seguinte, no Grande Palácio do Povo, para a cerimónia de boas-vindas. Agora, Donald Trump está presente nos dois momentos, na chegada à base aérea e na receção solene na Casa Branca. São opções protocolares distintas, tomadas pelos respetivos Estados anfitriões. No caso norte-americano, a presença presidencial em ambos os momentos amplia a visibilidade concedida ao visitante desde o início da Visita de Estado.
A cerimónia de 24 de setembro, na Casa Branca, agrega expressão institucional e cerimonial à Visita de Estado. Segundo o programa divulgado pela Presidência norte-americana, envolve representantes dos vários ramos das Forças Armadas, a exposição das bandeiras dos dois países, os hinos, as intervenções dos Presidentes, uma revista militar e um sobrevoo com um bombardeiro B-2 e quatro caças F-22. Esta encenação de poder reconhece a dignidade do Chefe de Estado visitante e apresenta, perante ele, símbolos representativos do Estado que o acolhe. O cerimonial traduz a hospitalidade e a afirmação da identidade norte-americana.
O programa procurou criar referências partilhadas. No banquete de Estado, a decoração assenta na cor vermelha e a Casa Branca apresenta a escolha como uma alusão ao respetivo significado na cultura chinesa. O brinde evoca a aproximação diplomática de 1972 entre Richard Nixon e Zhou Enlai. No último dia, os dois casais tomam chá na Casa Branca e visitam os Arquivos Nacionais, numa ocasião em que os Estados Unidos assinalam 250 anos da sua independência.
A leitura diplomática, contudo, vai para além de história, cultura e futuro. As informações oficiais descrevem conversações sobre comércio, segurança e tecnologias emergentes. A Casa Branca anuncia mecanismos de diálogo económico e medidas em áreas concretas; por seu lado, o Ministério dos Negócios Estrangeiros Chinês destaca os resultados comerciais e regista, igualmente, que o Presidente Chinês volta a colocar a questão de Taiwan. As duas comunicações permitem identificar pontos de entendimento, mas também revelam que permanecem matérias sensíveis entre os países.
Do ponto de vista do Protocolo, este caso ilustra a margem de escolha que existe mesmo numa visita de Estado cuidadosamente estruturada. O Presidente Trump não se limitou a receber o seu homólogo na Casa Branca. É uma decisão deliberada e publicamente anunciada. O seu significado mais seguro consiste no valor que o anfitrião pretende atribuir, perante todos, ao encontro com o Presidente Chinês.
Cristina Fernandes
28 de setembro de 2026


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