Mar, memória, Protocolo e Diplomacia: Harald V da Noruega e Portugal
A morte do Rei Harald V, ocorrida esta manhã, 28 de agosto de 2026, às 06h35, no “Oslo University Hospital Rikshospitalet”, encerra um reinado de mais de três décadas, ao longo do qual foi mantida uma relação interessante com Portugal.
Os reis noruegueses realizaram uma única Visita de Estado a Portugal, entre 27 e 29 de maio de 2008. No entanto, a ligação do Rei Harald V a Portugal é anterior e, olhada hoje, revela uma interessante continuidade entre a pessoa do monarca, a cultura marítima norueguesa e a própria construção protocolar da visita de 2008.
Com efeito, em abril de 1993, apenas dois anos depois de ter subido ao trono, Harald V esteve em Portugal, facto documentado pelo “Arquivo Histórico da Presidência da República”, para participar numa reunião da “International Yacht Racing Union”, realizada no Hotel Palácio, no Estoril. Não se tratou de uma visita de Estado nem, segundo a documentação disponível, de uma visita oficial bilateral. Como sabemos, esta distinção é protocolarmente relevante, na medida em que representação, programa, honras, precedências e responsabilidades do Estado anfitrião são substancialmente diferentes.
A circunstância é, contudo, reveladora. A vela ocupava um lugar central na vida do monarca e na sua presença pública. Quando, quinze anos mais tarde, regressa oficialmente a Lisboa a bordo do iate real “Norge”, o meio de chegada adquiria, por isso, um significado simultaneamente monárquico, nacional e pessoal.
A Visita de Estado em 2008
A 17 de maio de 2007, o então Presidente da República, Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva, dirigiu formalmente ao Rei Harald V um convite para visitar Portugal, acompanhado pela Rainha Sonja, visita esta que vem a acontecer em maio de 2008. O Cerimonial é, apenas, a parte visível de uma operação diplomática e protocolar preparada durante meses, por vezes anos.
A chegada dos monarcas a Portugal é extraordinariamente bem construída do ponto de vista simbólico. Os reis desembarcam no Cais da Princesa, junto à Torre de Belém, onde são recebidos com honras militares pelo Presidente da República e Sua Mulher. Portanto, um monarca de uma das grandes nações marítimas europeias chega, pelo Tejo, a bordo do iate real. A narrativa bilateral é eficaz e não necessita de explicações. Temos, portanto, o Cerimonial e o Protocolo a comunicarem.
Da Torre de Belém, o programa conduz os monarcas ao Mosteiro dos Jerónimos, onde depositam uma coroa de flores no túmulo de Luís de Camões. Seguem-se a visita ao Mosteiro, a deslocação ao Palácio de Belém, as conversações entre os Chefes de Estado, as declarações à comunicação social e um almoço privado dos dois casais. Posteriormente, um encontro com o Presidente da Assembleia da República, Dr. Jaime Gama.
A deposição da coroa é um dos gestos mais importantes do Cerimonial de uma Visita de Estado. Os visitantes prestam homenagem não ao governante que os recebe, mas à memória coletiva do Estado anfitrião. É uma forma solene de reconhecimento da identidade nacional.
O banquete de Estado e a linguagem das condecorações
A primeira jornada termina no Palácio Nacional da Ajuda, com o banquete oferecido pelo Presidente da República e pela Dr.ª Maria Cavaco Silva. Também aqui o Protocolo comunicou através dos símbolos. Harald V é agraciado com o Grande-Colar da Ordem Militar de Sant’Iago da Espada e a Rainha Sonja com a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo. Numerosos membros da delegação norueguesa recebem igualmente condecorações portuguesas. As condecorações devem ser entendidas como linguagem diplomática codificada. Reconhecem estatuto, reciprocidade e qualidade das relações entre os Estados e deixam uma memória institucional duradoura.
A reciprocidade, quando o convidado se transforma em anfitrião
O segundo dia revela outro princípio clássico do Protocolo, a reciprocidade da hospitalidade.
Harald V participa no “Portuguese-Norwegian Forum of Competence”, dedicado às energias renováveis, pescas sustentáveis e administração eletrónica. A Casa Real norueguesa destaca então aquilo que aproximava os dois países: duas culturas profundamente ligadas ao mar, à navegação, ao comércio e à exploração sustentável dos recursos marítimos. O bacalhau, inevitavelmente, entrou também nesta diplomacia económica e cultural.
O casal real é, ainda, recebido nos Paços do Concelho de Lisboa, pelo então Presidente da Câmara, Dr. António Costa. O monarca recebe as chaves da cidade e passa revista à Guarda de Honra. A rainha desenvolve paralelamente um programa cultural, associado à arquitetura e à literatura norueguesas.
À noite, os reis da Noruega oferecem um concerto de jazz no Convento do Beato e, posteriormente, o Presidente da República e Sua Mulher jantam a bordo do iate real. Portugal havia oferecido o banquete de Estado. Os visitantes retribuíam agora a hospitalidade através de uma iniciativa cultural e de uma receção no próprio iate real. O navio deixava de ser simplesmente transporte para se converter, de certo modo, numa extensão simbólica da representação soberana norueguesa.
O último dia decorre no Porto. Harald V participa num seminário, enquanto a Rainha visita o Museu de Arte Contemporânea de Serralves. Uma Visita de Estado começa com honras, símbolos e memória nacional, mas desenvolve relações políticas e económicas, inclui cultura e diplomacia pública.
A relação foi verdadeiramente recíproca
A visita de Harald V não surgiu num vazio diplomático. Existe uma sequência particularmente interessante de visitas entre as duas Chefias de Estado.
Em fevereiro de 1978, o rei Olav V, pai de Harald, efetuara uma Visita de Estado a Portugal, sendo recebido pelo então Presidente da República, General Ramalho Eanes que, dois anos mais tarde, realiza, acompanhado de Sua Mulher, uma Visita de Estado à Noruega.
Em fevereiro de 2004, o então Presidente da República, Dr. Jorge Sampaio e Sua Mulher efetuaram nova visita de Estado à Noruega. Harald V encontrava-se então impedido de exercer as suas funções e o à época Príncipe Herdeiro Haakon exercia a regência. Foi, portanto, quem, juntamente com a Rainha Sonja, recebeu protocolarmente o Presidente português. O programa incluiu cerimónia de boas-vindas no Palácio Real, apresentação das delegações, fotografia oficial, troca de presentes e condecorações, deposição de uma coroa no Monumento Nacional da Fortaleza de Akershus, almoço oficial e banquete no Palácio Real.
Finalmente, em maio de 2015, o Presidente da República, Professor Doutor Aníbal Cavaco Silva regressou à Noruega, acompanhado por Sua Mulher. Desta vez, porém, a Presidência portuguesa classifica expressamente a deslocação como visita oficial e não como visita de Estado.
Haakon VIII
A sucessão ocorre com a morte de Harald V e o próprio Governo norueguês anunciou esta manhã que se reuniria, em Conselho de Estado extraordinário, com o “novo Rei”. Do ponto de vista constitucional e protocolar, este é um momento particularmente significativo. A monarquia norueguesa segue o princípio da continuidade imediata da Coroa. A morte do soberano não cria um interregno, pois a sucessão opera automaticamente e o Conselho de Estado extraordinário materializa institucionalmente a passagem para o novo reinado. Na tradição constitucional norueguesa, a sucessão é imediata e não depende de uma coroação.
Haakon VIII anunciou que manterá o lema utilizado pelo pai, pelo avô e pelo bisavô: “Alt for Norge”, isto é, “Tudo pela Noruega”.
Conclusão
A visita do Rei Harald V a Portugal em 2008 é um caso particularmente interessante porque demonstra que a sobriedade tradicionalmente associada às monarquias escandinavas não significa menor rigor protocolar. Pelo contrário.
Houve honras militares, símbolos nacionais, homenagem à memória portuguesa, encontros entre os órgãos superiores do Estado, condecorações, banquete, reciprocidade de hospitalidade, programa cultural, diplomacia económica, relacionamento com a cidade anfitriã e extensão territorial da visita ao Porto.
Contudo, nada parece excessivo.
Talvez seja essa uma das lições mais úteis desta visita. O protocolo de Estado atinge a sua maior eficácia quando o simbolismo não necessita de ser explicado a cada momento. Um Rei ligado ao mar chega a Lisboa pelo Tejo. A Noruega encontra Portugal diante da Torre de Belém. Harald V dirige-se aos Jerónimos e inclina-se perante Camões. Portugal oferece-lhe o Palácio da Ajuda. A Noruega responde no Convento do Beato e a bordo do “Norge”. Depois, os dois países falam de mar, energia, ciência, cultura e futuro.
Existem cerimónias concebidas para produzir fugazes imagens e outras que permanecem porque são construídas sobre símbolos suficientemente fortes para sobreviverem à fotografia.
Cristina Fernandes
Agosto de 2026


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